domingo, 21 de agosto de 2016

Coisas que aprendi sobre o Luto


Desde sempre, desde miúda mesmo, recordo-me de ter imenso medo da morte, medo de morrer, medo de perder a minha mãe, a minha avó... 
Lembro-me que quando a minha mãe falava nisso imediatamente eu pedia para falarmos noutra coisa que não queria falar disso... Nem nunca tive curiosidade sobre o tema, sentia que podia ir adiado aquela conversa, aquele sentimento, mesmo que fosse só um "supúnhamos".

Até ao dia que me confrontei com a realidade e percebi que ia ter que lidar com a partida física, nada mais nada menos do que de um FILHO. 
Haverá maior provação e aprendizagem na vida? Não creio. 

Cada um com a "sua cruz" como se diz, e na verdade durante todo o processo no IPO com o Duarte, cada vez que á minha volta tinha conhecimento de que mais um/a menino/a tinha partido, na minha cabeça só soava uma pergunta: - "Meu Deus! Como estará aquela Mãe?!".

Aquele medo existia em mim a cada segundo, mas tentei viver cada momento, e pensar que se aquela situação não estava a acontecer comigo, não precisava de estar a pensar nela, e assim foi, cada vez que me vinham aqueles medos, tentava pensar assim e ao mesmo tempo, pedia a Deus para que de certa forma "aconchegasse o coração daquela Mãe" - Hoje sei que isso é impossível, porque nada aconchega um coração de uma Mãe que acaba de perder o seu filho, então hoje eu SEI, APRENDI, e infelizmente não LI, mas VIVO e por isso posso dizer que sei algumas coisas sobre o LUTO (pelo menos sobre o meu LUTO) : 

Primeiro:  Sei que o Luto não é uma doença, nem um processo escrito nos livros de psicologia e dividido em fases... Muito menos toda a gente o vive da mesma forma. 

Na verdade gostava de perceber o que é o Luto na realidade:

Uma patologia? Não creio, mas já senti que por vezes me deixa fisicamente doente.
Um estado? Como um estado, se por vezes no meio desse estado de dor e angustia porfunda eu consigo sorrir e sentir-me bem?!
Não será uma fase concerteza porque não acredito que algum dia deixarei de chorar o meu filho, porque chorar faz parte, é como rir... Então uma das outras coisas que aprendi sobre o luto é que não temos que nos colar a essa palavra, nem aos timmings que a psicologia estipula para ela. 

Aprendi então que viveremos eternamente com a Saudade, só quem não se permite amar, não se permite sofrer e sentir saudade .. Uma vez que amamos (na sua essência e verdadeira forma), estamos prontos para chorar a saudade e o apego ao corpo físico. 

Outra das coisas que hoje sei é que todos os problemas e obstáculos são sempre inferiores ao que sentimos, mas ao mesmo tempo, sentimos que não somos merecedores de tantos desafios, e que a vida por vezes se torna injusta. 

Sabemos todo o que nos dizem, e há dias em que isso consola mesmo, mas outros em que pensamos naquela maior asneira que sabemos dizer, e dizemos bem alto, juntando a revolta de não percebermos o motivo pelo qual nos está a acontecer tais provações. 

De certeza que todas as pessoas que perderam alguém que amam muito, principalmente nós que perdemos um FILHO, porque é só disso que sei falar, no fundo não posso falar do que sente o outro, eu sei o que EU sinto apenas... de certeza, que algures em qualquer conversa ou pensamento, vocês ouviram algo como: -  "Ele está sempre contigo". 
Que bom ouvir isso, ás vezes. Outras não, sabem porquê?! Porque eu não o vejo, e eu queria era vê-lo agora, só isso. É por isso que vem a Saudade porque Amor, esse eu tenho e terei sempre... Eu por ele e ele por mim. 

Mas a Saudade essa vem daquele lado do Amor mais físico, mais carnal, essa vem do cheiro, vem do movimento, da VIDA em VIDA, da presença á mesa, do entregar um presente, comprar um presente, é aí que vem o LUTO... A Saudade de verdade. 

Aprendi mais uma coisa sobre o LUTO, não há horas, não há minutos, não há segundos: Ora estamos muito bem, ora vem uma conversa, um cheiro, uma lembrança, coisas tão simples, mas que fazem as lágrimas caírem no rosto.
Partilho convosco: Ontem vinha de regresso a casa, senti que as lágrimas me caíram do rosto, frias, geladas, como se o meu coração estivesse assim, gelado. Elas apenas caíram, e eu só pedia para que o J me deixasse ir assim, e não me questionasse em relação a nada... Elas queriam sair, assim como o Duarte quis sair de mim naquele inverno de 2014, era inevitável... 

Tudo é inevitável quando tem realmente que acontecer. 

E o luto é isso, inevitável, essencial, e próprio de cada um. 
Um beijinho com amor.

Para SEMPRE, 
A Mãe do Duarte 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Para todas as mães que vão sempre ser mães...


Para todas as mães que vão sempre ser mães...

Aquelas mães que sentem saudade a cada segundo, essa sou eu... são tantas outras, obrigadas a "viver" depois de lhes tirarem a "vida".

Aquelas confrontadas com a dura realidade, os milagres acontecem, e sermos mães de seres tão especiais é também um milagre...

Somos mães de seres, que um dia vimos, que um dia estiveram no nosso ventre, que um dia achámos que jamais iriamos viver sem eles... 

Somos mães obrigadas a ser iguais, mesmo quando tudo é diferente...

Somos mães que amam os seus filhos desde que viram o teste de gravidez positivo, até sempre...

Não se é MÃE até ao dia que eles partem... seremos sempre mães. 
Somos mães com coração para amar..
.
Somos mães com boca para sorrir, e sorrimos, mesmo quando por dentro a saudade chora, e o orgulho neles, esse... permanece. Mesmo quando no jardim vemos outros meninos a brincar e pensamos como seria bom serem eles ali a brincar... mesmo assim, temos orgulho no que os nossos filhos foram, e são.

Somos guerreiras, que não foram á guerra... porque lutar pelos nossos filhos não é uma batalha é intrínseco, é instinto se quiserem...

Temos medos, sempre tivemos, umas vezes mais que outras... 
Mas tivemos um medo a certa altura, medo de os perder... mesmo que seja impossível perder alguém que está sempre no nosso coração, isto é algo que sempre soubemos, mas nunca quisemos saber.

Dizia eu noutro texto que escrevia para as mães, que algures no tempo passaram pelo IPO: 
"depois disto seremos capazes de tudo", mantenho.

Depois de o meu filho partir, do seu corpo parar, a sua vitalidade se despedir e depois da sua alma ir para outro plano, depois, entenda-se: hoje... hoje sou capaz de suportar tudo, porque suporto todos os dias a dor que é a sua ausência física.

Hoje sei, não o perdi... porque o amor não se perde. Só não posso demonstrar o meu amor da mesma maneira que o fazia.

Já dizia Einstein:

"Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre. "

E sermos mães de seres tão especiais é sem duvida um milagre...

E sabermos o amor verdadeiro é algo que nunca, jamais, ninguém pode levar.

Obrigada meu filho.
Com amor,
A Mãe do Duarte

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Morrer é só não ser visto" - MAS EU TENHO SAUDADES DE TE VER!!!















Hoje é dia 24 de Junho, passaram quase três meses desde que o teu corpo nos deixou, e a tua alma foi para uma dimensão que todos desconhecemos.
Beijinho da mamã que te ama, todos os dias.


Existe uma Saudade permanente que me acompanha diariamente, segundo a segundo.
Tenho várias questões presentes em mim, e uma que me acompanha:
"Como pode uma mãe viver sem um filho?"

Não existe segundo em cada dia que não estejas no meu coração e não existe sol nos dias de calor.
Sei que hoje estás mais presente do que poderias estar mesmo que aqui estivesses, mas faz-me falta a felicidade que juntos vivíamos.

Já algumas vezes me questionei, se algum dia voltarei a ser realmente feliz, sem uma parte de mim.

Os dias vivem-se, e passam uns atrás dos outros a uma velocidade que nem me apetece contar.
As horas passam, os minutos voam, mas o meu pensamento permanece: Sinto a tua falta, sempre!

Guardo em mim todas as memórias, e tudo se traduz a recordações, a fotos.
Só queria mais uma.

Só queria mais uma foto.
Só queria mais um beijo...
Só queria mais um miminho...

"Morrer é só não ser visto"

Mas eu tenho saudades de te ver.


Vamos encontrar-nos de novo eu sei.

Beijinho de Esquimó,
A Mãe do Duarte

terça-feira, 31 de maio de 2016

Feliz Dia dos Maninhos "Hoje falei-lhe do mano"












Hoje dia dos irmãos, falei de ti ao mano bebé...
Ainda não sabemos se é um feijão ou uma "feijoa", mas como sabes para nós pouco importa, queremos que venha saudável que seja sempre feliz como sempre foste.

Falei-lhe de ti, contei-lhe que tinha um mano e que hoje era o vosso dia.
Falei-lhe de ti, e pedi-lhe perdão por não conseguir ainda ligar-me a ele como queria, e como estava ligada a ti no inicio. 

Na verdade sabem os dois que a Mãe tem saudades, uma saudade que me enche o coração, tal como o amor por vocês enche. 

Hoje falei-lhe de ti, disse que ele iria ser sempre amado como tu foste, e disse-lhe que tu estavas sempre no céu a olhar por ele, e que para sempre ele ia ter um anjinho amigo "só dele", que é o mano.

Na verdade desejei também que neste dia dos "maninhos" estivéssemos aqui os quatro, quatro corações a bater nesta casa... Era o que mais desejava. 
A vida não quis assim, e no fundo  meu coração de Mãe estará sempre cheio de Amor, pelos dois.

Tenho saudades bebé do céu...

AMO-TE.

Beijinhos de amor meus e do mano,
A Mãe do Duarte



Deixo-te uma foto em modo forninho dos dois, em cima tu e em baixo o maninho/a. 




domingo, 22 de maio de 2016

Para ti meu querido filho...













É neste domingo de Sol que te escrevo...

Lá fora está lindo, era um daqueles dias em que possivelmente iríamos os dois passear pelas ruas de Carcavelos, possivelmente ao jardim dos patinhos ou ao mercado comprar legumes, desculpa-me a minha falta de criatividade nos passeios, mas gostávamos tanto os dois, não era?

Sei que desse outro mundo onde te encontras me sentes, tal como te sinto a ti...
Desculpa-me as horas em que a saudade se apodera de mim, e me vês frágil, na verdade deves pensar que nunca foi isso que te ensinei e mostrei nestes tempos que estiveste ao meu lado aqui na terra...
Eu sei que só tu me compreendes, porque só eu e tu é que sabíamos este Amor, que ultrapassa qualquer partida física, mas que ao mesmo tempo era tão carnal.


Em mim está outro Ser, outra Vida, outro coração que bate... No fundo faz-me reviver tudo o que sentia quando o teu coração batia em mim...
Agradeço-te com a minha Alma, não me teres deixado sozinha...
E a cada minuto me fazeres ver que apesar da tua ausência física, estás sempre em mim e comigo...

Como sabes os últimos dias não têm sido fáceis para a Mãe o tempo passa e a saudade aumenta, e na verdade só queria que a nossa vida tivesse sido mais fácil.

Sabes? Quando penso que tudo poderia ter sido diferente, há uma voz em mim que me diz que te cumpriste na tua vida, e que eu como tua Mãe me cumpri também até ao teu ultimo batimento - Talvez essa voz calada sejas tu...

Quando nasceste havia algo em mim que não me deixava "emprestar-te",não me perguntes porquê mas bem te lembras desse apego, eu sei. Na verdade o meu coração protector sabia que ninguém te amava como eu, e que ninguém te iria "pegar" como eu. Eras meu.
E quando era hora de alguém te "pegar", o meu coração apertava, e só queria que fosse rápido para regressares ao meu colo.
Sempre fomos tão carnais.
Havia algo em mim que me mostrava que tinha que te mimar a cada segundo, havia algo em mim que não me deixava "emprestar-te".


Naquele dia 4 de Abril houve algo de mim que foi contigo.
Naquele dia 4 de Abril, houve uma dor inexplicável, que as minhas palavras, as minhas letras não sabem dizer ou escrever... Mas ao mesmo tempo, uma sensação incrível.
Como se soubesse que a tua missão acabava ali, e a minha continuava pela vida fora, mas com uma visão completamente diferente.



Aquele meu apego que não me deixava ficar tranquila quando ias para a creche, aquele meu sentimento sempre protector e agarrado a ti, aquele sentimento de não te querer "emprestar" nunca...
Mudou! Tive que te deixar partir... Tive que te entregar... Porque tu sentis-te que era a tua hora.
Não me resta mais nada do que respeitar a tua partida...
Honrar-te a toda a hora, por tudo o que me ensinaste...
Agradecer-te a cada segundo teres-me ensinado o Amor... Teres-me feito tão feliz.


A nossa vida podia ter sido diferente... Hoje podíamos passear nos patinhos e aproveitar o Sol.
Mas não seriamos certamente tão iluminados como somos.


Hoje escrevo-te, com saudade, essa que nunca passa.
Hoje dói-me a tua ausência.
Mas estou eternamente grata por ser tua Mãe!
Faria tudo de novo, igual.


Recebe este amor e gratidão enorme que sentirei sempre por ti...


Hoje com Saudade,
A Mãe do Duarte




terça-feira, 10 de maio de 2016

Para sempre: A MÃE DO DUARTE! O "04-04-2016"
























Existes nos meus sonhos...
Existes nos meus dias...
Existes em mim, a todo o momento...


Dia 4 de Abril de 2016


O teu corpo ficou na terra e a tua alma subiu ao céu..
Um dia "normal", estávamos nos cuidados intensivos pediátricos do Hospital Santa Maria desde Sábado.
Algumas dificuldades em respirar, mas tudo controlado á partida...
O dia foi passando e nós fomos percebendo...
Era aquele o dia que tanto temíamos, senti que não te iria ver mais aqui na terra... e pedi aos céus que não te mantivessem aqui na terra por egoísmo meu, por apego. 
Se fosse aquela a hora, que fosses em paz, sem sofrimento. Não merecias isso. 

Chamei as pessoas mais importantes para nós e na tua vida, não pensei sequer, não foi difícil "escolhê-las" depois daqueles 6 meses a aprender todos os dias... Foi inato em mim, e rápido também... Senti que estávamos todos preparados, e que toda a nossa família padece de um amor incrível que nem a "partida" mata.
A dor da partida era enorme...
As lágrimas caíam, e a dor na alma não ficava em lado nenhum, andava comigo.. A garganta estava seca, e tinha um nó...
Na cabeça anda tudo, e não andava nada...
Mas no coração estava a certeza da frase que partilhei convosco á tempos... "quero salvar o meu filho, ou da doença ou do sofrimento".

No meio de toda a dor que sentia em mim... olhava para ele, falava com ele, e sentia que não era ele, o bebé feliz, cheio de vida, forte...

Deixei de perguntar quais as soluções, tinha chegado a hora, eu tinha que ouvir a verdade, pensei.

Com as lágrimas a escorrer e com o queixo a tremer horrores peguei na mão do ser incrível que acompanhava o Duarte naquele dia, aquela médica, aquele ANJO:

"Dra ele vai partir não vai?"
Olhou para mim, com amor, muito amor mesmo:
"Muito provavelmente mãe"
Chorei, chorei... chorei...
Olhei-a nos olhos, com tanto amor, com tanta admiração, e pedi:
"Pfv como se fosse um dos seus... Ajude-o para que não sofra, e para que este momento seja digno para ele."
Sorriu carinhosamente, e acenou que sim.
Ajudei-o a nascer, fiz tanta força, tive tanta força...
Ajudei-o a partir, estive ao lado dele, fiz tudo para que tivesse uma partida tão digna quanto foi o seu nascimento e a sua vida. No fundo não fiz força, mas ele deu-me força muita força...
Não havia naquele momento epidural para a minha alma de mãe, morfina para a dor das saudades que já existiam em mim.
20:15h
O coraçãozinho dele parou, respirou a ultima vez.
"Vai em paz meu anjo, ajuda a mamã. Amo-te, amo-te, amo-te. Obrigada por tudo meu querido"
A alma dele partiu em paz.

Fica uma saudade enorme, mas a certeza que tenho um filho ANJO, que tenho uma companhia constante e eterna... e que nunca mais nesta vida eu estarei sozinha.

Não tenho palavras para descrever aquela equipa da UCIPed Santa Maria...
O respeito, a dignidade, o carinho, o acompanhamento.
São seres muito iluminados.
Obrigada por tudo!!

Sobre o IPO um dia eu escrevo.

Construi uma família.
Somos muito abençoados por termos conhecido pessoas tão especiais.
Um obrigado especial por aquele sábado a enf. Anabela, foi um anjo.

Na vida aprendemos a amar...

Na partida, percebemos o AMOR na sua verdadeira e pura essência...
Esse não morre!!!

OBRIGADA FAMÍLIA PELO NOSSO AMOR, E UNIÃO!

OBRIGADA FILHO,
OBRIGADA LUZ DA MINHA VIDA!

Para sempre,
A Mãe do Duarte

  

sábado, 26 de março de 2016

Onde há vida, há esperança!















Onde há vida, há esperança... 
E é isso mesmo, o meu filho, tem vida, tem tanta vida nele...
 E nós, nós temos tanta esperança na vida que ele ainda tem. 
Não vos sei explicar o que senti quando me disseram "não há mais nada a fazer"!
Como não há mais nada a fazer? O meu filho tem 15 meses... Tem tanta vida pela frente... Eu quero levá-lo ao primeiro dia de escola, eu quero vê-lo a andar pela primeira vez... Eu quero mais birras, eu preciso de muito mais birras...
Foi um misto de emoções, ao mesmo tempo não o quero sujeitar a mais sofrimento... Mas vejo-me obrigada a parar, quando eu quero é remar pela vida dele. 
O meu mundo desabou, mais do que no dia que me disseram que ele estava doente.
Porque: "Está doente?! Ok ... Vamos tratar.
Não resultou. Ok... Então o que resulta?!"
Há sempre uma batalha dura é verdade, mas há.
Agora não há mais nada a fazer ?! E agora?! O que é suposto eu dizer? Ou fazer? 
Acreditava eu na minha ignorância, que seria capaz de saber parar, na altura certa. Mas hoje sei que dificilmente eu vou conseguir parar.
Acreditava eu que se fosse altura de mostrar ao meu filho tudo e mais alguma coisa (fora do ambiente hospitalar), eu seria capaz de mesmo destruída por dentro, de fazê-lo. 
Mas não sei, na altura talvez saberei. Mas naquele dia eu não soube. 
Naquele dia eu só soube que não o queria perder, e que para mim não era altura para parar. 

Alguém ouviu o meu silêncio, alguém escutou a minha dor, aquela que se via e que toda a gente viu, mas a verdadeira estava na minha alma, que doía como nunca. 

No dia seguinte, há uma esperança, 
É verdade, os médicos não acreditam que o Duarte se consiga curar.
É verdade, nem tudo está a correr como esperávamos...
Mas sabem? O meu coração de mãe, sorriu.

Ainda há alguma coisa a fazer:
O Duarte tem um dador (obrigada a todos os que perdem um pouco do seu tempo para salvar vidas, de outra forma o meu texto seria diferente)
É verdade que não poderá fazer transplante antes de estar em remissão.
Mas ainda há uma esperança.
Vamos fazer um tratamento experimental.
Temos mais uma batalha pela frente.
Temos tempos difíceis (ou menos fáceis) pela frente...
Mas temos vida em nós, temos todos os sonhos do mundo, temos todo o nosso amor e dedicação para lhe dar, todos os dias, e até ao fim.

Uma boa páscoa a todos.

Com amor,
A MÃE DO DUARTE  

quarta-feira, 23 de março de 2016

Quero salvar o meu filho

Tenho em mim todas as forças do mundo, quero só uma unica coisa... SALVAR O MEU FILHO!
Recebemos a noticia que não queríamos receber o Duarte tem bastante doença ainda.
Fiquei de rastos? Não (sou mãe, eu sabia). 
Mas isso não invalida que esteja a existir em mim um misto de sensações que quase não consigo adjectivar. 
Só há uma questão aqui, uma, quero salvar o meu filho.
Seja aqui ou em qualquer parte, quero salvar o meu filho.
Sabem? Talvez salvá-lo passe apenas por tirar-lhe o sofrimento, é o que tenho feito, tudo menos ele sofrer, prefiro sofrer eu.
E sabem? Ele é tão feliz!
Feliz ignorância do meu filho que não sabe, ou que sabe, e não dá importância.

Ele quer ser feliz - e é, muito.

Usufruo tanto dele, usufruímos dele a cada birra, usufruímos a cada gritinho, a cada sorriso. 
Mas o meu coração de mãe só tem um pensamento: "Quero salvar o meu filho".
Sabem? Quando o Duarte adoeceu, ainda não sabíamos o que ele tinha eu encostei-me á minha mãe, e durante aquele abraço de aconchego eu disse: "Mãe se o menino tiver algo de grave, eu não vou aguentar".
E aqui estou eu, passados 5 meses e curioso: Eu aguentei. E cada vez aguento mais...

Apesar do meu coração de mãe gritar: "chega", a cada noticia menos boa, ele fica mais forte... E foca-se apenas numa coisa: " Eu quero salvar o meu filho" mas acima de tudo eu não quero sofrimento. 
Ainda não sabemos qual será o próximo passo, mas for ele qual for, seja ela qual seja a nossa decisão em relação ao Duarte, eu espero ter o meu coração protetor na boca, e decidir consoante o que for melhor para ele, e lhe cause o minimo sofrimento possível,    
Eu que achava que sabia tudo sobre amor, não sabia NADA !!!
Agora sei, um pouco mais, muito mais... Amor é isto: "Salvem o meu filho, mas não o façam sofrer".
Amor é isto: "Amo-o mais do que todas as minhas forças conseguem expressar, mas se for para ele partir, dê-me forças para o deixar ir em paz, e sem sofrimento e egoísmos.
Que desafio de vida.
Que sofrimento desumano...
Que revolta...
Que impotência... 

Esta doença que habita no meu filho e que insiste em permanecer, tirou-me o chão, mas jamais me tirará a força de lutar pela vida dele. 

Farei tudo o que está ao meu alcance...
Farei tudo o que a minha consciência me permitir...

Seja qual for o desfecho, farei sempre tudo, para salvar o meu filho, ou da doença, ou do sofrimento. 

Hoje com dor na alma, e uma determinação animalesca

Mas com amor,
A MÃE DO DUARTE

domingo, 6 de março de 2016

Conversei com a Vida














Quero conversar com a vida...
Quero conversar contigo que me vês e que sabes o que são e serão as minhas aprendizagens necessárias.
Quero conversar contigo e perguntar-te se vou poder cheirar o meu filho para sempre, se vou poder dar-lhe o banhinho e adormecer no colo dele...
Quero que me mostres que estou a fazer tudo o que posso fazer porque o meu coração de mãe diz-me que é sempre pouco...

Também queria que me assegurasses o meu lado dependente, garantindo-me que ele terá sempre uma presença física na minha vida, garantindo-me que a mãe terra o acolherá até ser a hora suposta de ele ir (se possível depois de mim).

É isto que nos assombra todos os dias,  a nossa ligação física a um ser, que julgamos ser nosso.

Repara, eu carreguei-o no meu ventre, eu amei-o desde o primeiro segundo que soube que ele existia em mim, eu trouxe-o até ti... E confrontas-me com a realidade dura e crua que o posso perder?! 
Não estou revoltada contigo, nem comigo, na verdade está tudo certo.
E obrigada por acreditares que eu seria capaz de lidar com todo este pesadelo da melhor forma...
Obrigada por me mostrares que fracos são os que não tentam, e que a doença é apenas o Diagnóstico, tudo o resto é amor que nos move, e esse tu deste-me o prazer de o conhecer da forma mais pura e incrível.
Mas e o apego? Diz-me como lido com isso? 
Eu sei que ele não é meu... Mas é inevitável, eu sinto-o meu. 
É isso que me queres ensinar?!  
Talvez um dia eu tenha todas essas respostas, tu a pouco e pouco vais-me mostrando...
Eu sei que nem sempre pareces justa, mas depende da perspectiva, se não fosse teres-me posto á prova desta maneira, eu desconheceria para sempre todas as qualidades que eu aqui adquiri, eu desconheceria para sempre provavelmente, que sou capaz de o amar eternamente, mesmo com o medo de o perder fisicamente, eu sei, hoje, que o amarei para sempre...

Sabes? Hoje ele está aqui, hoje ele está bem, hoje ele riu, abraçou-me, beijou-me, e dormiu toda a noite a respirar ao meu ouvido. Foi tão bom. É sempre tão bom. 

Por hoje eu agradeço-te, por hoje tu mostraste-me que os meus medos não passam disso, e nada do que temo está a acontecer...
Por hoje, Obrigada.
Por tudo, Obrigada, não fazes ideia do filho maravilhoso que eu tenho, e mais, do privilégio que é.
Serei sempre a mãe deste ser incrível, já viste? Que orgulho.

Com amor, 
A MÃE DO DUARTE

sexta-feira, 4 de março de 2016

Saudade de mim, esperança em nós






















Hoje lembrei-me de quando eras saudável, da sorte que tínhamos, tínhamos tudo e julgávamos nada ter...

Hoje lembrei-me do primeiro dia que te vi, os olhos de azeitona abertos e espertos, senti naquele momento que eras sem dúvida um ser muito especial...

Cada dia mais me apetece não falar do que se está a passar, como se não falando as coisas fossem ficando mais "leves" em mim.
Tenho saudades de mim.
Tenho saudades da rotina (aquela que eu sempre detestei ter), mas que a impermanência da vida me mostrou que ela faz falta, tanto faz que sentimos falta dela.
Tenho saudades de arrumar as malas, e com elas arrumar a possibilidade de aqui voltar.
A nossa vida mudou e eu sempre tive uma grande capacidade de encaixe, mas na verdade sinto saudades de algumas pequenas coisas que neste momento valem muito.
Tenho saudades de ser eu.
Tenho saudades de ser a mãe do bebé que vai á creche, que toma banho na banheira, que tem sempre apetite...
Tenho saudades de ser a mãe que faz a sopa e prepara os pratinhos para alimentar a família...
Tenho saudades de ir ao supermercado, sem me preocupar com neutrófilos e leucócitos...
Neste momento estamos isolados (aliás o Duarte está isolado), mas na verdade estamos todos...
Hoje vesti verde, nem a propósito escrevi este texto no dia que vesti verde... a cor da esperança...
A esperança de que um dia, vá levar o meu filho á escola...
A esperança que um dia, ele coma com vontade...
A esperança que o nosso quadro perfeito  surgirá um dia...
A esperança que seremos ainda mais felizes...
Esperança que a saudade do que fomos seja o presente do que queremos ser...
Esperança aquela que nos move aqui...
Essa eu não perco, essa ninguém deve perder, seja qual for a situação, ela dá-nos força e determinação.
E o meu filho mostra-me todos os dias que essa eu não posso perder.

Com amor,
A MÃE DO DUARTE

quinta-feira, 3 de março de 2016

Ás mães do IPO





















Ás mães do IPO, porque são lindas  por baixo de todo o desgaste e dor que carregam...
Às mães do IPO, pelas noites mal dormidas e por aquelas simplesmente não dormidas...
A elas, a nós, por toda a força que diariamente demonstram..

Podia dizer que não observo e que tudo o que se passa nestes corredores me passa ao lado, mas não é verdade, aliás, é quase impossível não observar a força feminina nestes corredores, depois de lhes tirarem o chão, depois de lhes terem alterado a vida por completo, depois da luz das suas vidas estarem num hospital com cancro, depois de tudo o que se passa de hora a hora, de minuto a minuto...

Elas andam no corredor com um ar atarefado, vão buscar comida a toda a hora, tudo o que as crias desejam, apenas mais uma tentativa para que eles comam...
Elas andam no corredor sempre a empurrar o "bobby" como aqui é chamado...
Elas ficam fechadas no quarto o tempo que for preciso...

Elas são umas verdadeiras leoas, sempre preocupadas em fazer o que podem e não podem para que as suas crias tenham tudo o que precisam, ou que querem, para que nem que seja  só por um bocadinho fiquem mais felizes ainda ou mais aliviados.

Eles perdem identidade: "mãe do Duarte, precisa de alguma coisa?" ; "mãe da .... o que ela comeu hoje?".
Falando nisso aproveito para vos explicar o porquê do blog ter este nome, é exactamente por isso, desde que estamos "nesta vida nova", muito raramente eu sou a Cláudia, passei apenas e somente a mãe do Duarte, e é verdade, nós somos somente as mães, e tudo o que esse nome designa, somos as mamãs, somos enfermeiras, somos amigas, somos o colinho que acalma , a voz que consola, e temos também aquela característica tão importante, os olhos de mãe, esses sim vêm o que mais ninguém vê, esses.sim, muitas vezes caracterizados como exagerados, mas que na verdade, têm sempre razão.

Cada uma á sua maneira acredito que cada uma de nós faz o melhor que sabe e pode.
Muitas vezes deixando de pensar nelas próprias, muitas vezes destruidas por dentro conseguem não o demonstrar, conseguem carregar todo medo, a dor, a ansiedade, e ainda toda a fé que um dia tudo acabará bem, e que todo este processo só irá contribuir para que sejamos todas pessoas melhores, porque quem aqui passa não sai daqui igual.

Para elas, para mim, para nós...
Por eles, pelo Duarte, por nós que aqui estamos todos, em muitos casos 24 sobre 24h...

Que Deus abençoe todas estas mães incríveis e incansáveis que aqui estão nesta que não é uma corrida de 100 metros, mas sim uma maratona, com muitos altos e baixos.
Que elas continuem com a mesma força e.determinação que as caracteriza.
E que no fim de tudo saibam, que depois disto, serão capazes de TUDO!

Com amor,
A MÃE DO DUARTE

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Ele não é a Leucemia!





Tenho que admitir: Estou cansada de aqui estar, não é fácil não termos a nossa privacidade, e a nossa "casa" se resumir a um quarto de hospital por tempo indeterminado... 
Coisas que não dava valor agora dou: Jantar em casa, por exemplo.
Os dias são longos e as noites trazem escuridão, trazem medos, mas trazem muita introspecção também. 
Isto á uns meses era tão longínquo para mim, nunca pensamos conhecer tão de perto a pediatria do IPO, pelo menos neste contexto. 

A doença dos nossos filhos é sem dúvida o maior desafio que a vida nos pode dar, destrói qualquer estabilidade. Mas ao mesmo tempo estes momentos difíceis na nossa vida confrontam—nos com a dura realidade que é perceber que aqueles que julgavamos que iram estar sempre ao nosso lado na verdade não estão, ou porque dá trabalho, ou porque é chato, ou tão somente porque "não são capazes de vir aqui". 
E se eu não fosse capaz de vir aqui?
 A mim ainda mais confusão me deveria fazer, ora, metade das crianças que aqui estão em estados mais, ou menos críticos, não importa, têm o mesmo que o meu filho, ou parecido. 
Como seria se eu não fosse capaz?!
Felizmente sou, sempre fui e sempre serei....Capaz!! 
Capaz de dar ao meu filho a dignidade que ele merece, e estar com ele onde ele estiver;
Capaz de estar ao lado dele no IPO, com a mesma dignidade e amor que o levarei ao ZOO.
Capaz de olhar para ele, e vê—lo a ele, não importa onde está, é ele. 
Mãe é mãe, e eu sou mãe, sou a mãe do Duarte, e não vos faça confusão pfv, ele estar aqui ou em casa, ele ter cabelo ou estar careca.
Ele é o Duarte. 
E tenho a certeza que ele é muito feliz, e tem muito amor á sua volta.
Ele não é a Leucemia e os seus efeitos chatos, ele não é mais um menino internado no IPO, ele é o Duarte, e cada um merece individualmente o nosso amor e dignidade.

E quem o ama e o honra, terá para sempre o meu amor.

Com amor,
A MÃE DO DUARTE