sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Ao som desta data




Ao som de Mafalda Veiga te escrevo, não se bem se a quero ouvir.
Sei bem que não quero o silêncio.
O corpo sente as datas, ai se sente... Eu cá sei.
Ele caminha, tem que caminhar mas a mente, a alma talvez trás-me aquelas lembranças de profunda dor amorosa.

Hoje escrevo-a, porque o corpo não deixa esquecer as datas.
Tudo parecia tão anormalmente normal, queria eu pensar.

Hoje escrevo-te, sinto-te, e tenho saudade tua.
Hoje choro-te, na verdade só choramos quem sentimos apego, e nós tínhamos disso, se tínhamos...

As datas caiem no calendário, e a minha certeza que os anos passam fica mais clara e nítida.
Tudo parecia tão estranho, tudo parece tão estranho.
Aquela data em que em mim não cabiam necessidades, só medo disfarçado.
Aquela data em que as informações que medicamente me foram transmitidas, palavras diretas, contabilização de vida, da tua vida, e da minha.
Informações de dor, que a minha alma ainda sente.

Hoje escrevo-te, sinto-te, e tenho saudade tua.
Tudo é tão claro em mim hoje. Três anos de tantos mais.
Hoje escrevo-te, sinto-te, e tenho saudade tua.
Hoje escrevo-te, sinto-te, e sei-nos eternos.

Beijo de amor,
Mamã

"Mafalda Veiga - Imortais"

terça-feira, 3 de abril de 2018

Sabia-te em mim naquele Abril












O relógio anda ... A noite já caiu...
O sono não vem e o Abril chegou depressa..

Chegou depressa o dia do calendário em que as lembranças de sofrimento se apoderam de mim, entram pelas noites e nem o zapping pela televisão as leva.

Sei o propósito, sei que me ouves e me comunicas, sei que a saudade fica e que o Amor vence sempre.
Recordo-me da tua pele gelada, e do teu peito saltitante.
Recordo-me da Paz naquela noite...
Do olhar molhado, e das nossas almas de luz se unirem para sempre.
Recordo-me do respirar notável em mim, e da calma no meu olhar...
Recordo-me de nada me recordar.
Recordo-me de te prometer que tudo iria correr bem.
Se tudo desse para escrever, descrevia o quanto fomos abençoados naquele momento de dor na alma.
Eu sabia-te em mim, e tu sentias-me na alma, a tua alma falou-me no silêncio do olhar que só nós sabíamos falar.
Sei de cor que vivemos amor, e mais uma vez estávamos a viver amor.

Pedi a Deus que fosse feita a sua vontade, mas que não o fizesse com sofrimento. E assim foi (...) Abençoados com uma fé que não se explica - "Foi feita a sua vontade , assim na terra como no céu"

E na minha alma eu sei que parecendo clichê ou não, a tua viagem foi em paz e eu como sempre te prometi, pude dar-te a mão e acompanhar-te nesse caminho do nosso tão duro desapego físico.

Hoje eu sei, a minha alma aperta por mais um toque, os meus olhos olham o céu, e os meus joelhos sentem o chão, o meu corpo acusa saudade.

"Avé Maria cheia de graça (...) bendita sois vós entre as mulheres... E bendito é o fruto do vosso ventre (...)"

 Um beijo meu amor com saudade eterna,
Mamã

quinta-feira, 22 de março de 2018

Caminhando com as difíceis datas





E assim entro numa temporada de introspeção...

Porque o corpo acusa as datas, e alma acolhe a insatisfação.

Começam as lembranças "há um ano atrás eu estava..."; "há dois anos atrás por esta hora.." - e aos poucos olhamos para o calendário e percebemos que 

o nosso corpo se prepara para a dor da recordação, para a mais presente lembrança do que jamais esquecemos.

E continuando na maré cheia de emoções recordo o mês em que gerava um mim uma vida e gerava a preparação para uma morte.

Cabia em mim toda a esperança das duas cadeiras no banco traseiro do carro.

Uns dias depois a cadeira veio vazia, e ventre cheio de emoções.

A noite era escura, e a alma perdeu-se no silêncio de uma viagem para casa.


A alma perdeu-se e não mais se encontrou da mesma forma...

E num só dia nasceu outra alma em mim, nasceu um novo olhar acompanhado de saudade e esperança, nasceu uma vida cheia de amor para dar, 

e nasceu também uma vontade de voltar a tocar e beijar o que jamais poderá ser tocado.


Ele voltou para dentro de mim, ela estava dentro de mim...

E na estrada da vida soube - que dentro de mim haverá espaço para "as duas cadeiras no banco traseiro do carro" mesmo que o carro esteja vazio.


E na estrada da vida eu soube, que caminhar seria o caminho...

E na estrada da vida eu soube, que o caminho é imprevisível, inconstante e por vezes inoportuno.

Mas pela estrada da vida eu sei que no fim do caminho eu vou saber, que todas as imprevisibilidades foram o que me fizeram caminhar em frente.


E pela estrada da vida em continuo, sem certeza de quando chega ao fim, mas sabendo que depois do inverno vem a primavera, e o inverno volta e de seguida a primavera.

E neste ciclo da vida sabemos apenas que basta estarmos verticais para podermos caminhar.


E pela estrada da vida eu escolhi caminhar pelas datas, pelas horas e pelas memórias sempre sabendo que em mim, são elas que me fazem estar vertical e caminhar.


Abraço-te no fim da minha caminhada.

Com amor,

Mamã Cláudia F.

sábado, 12 de agosto de 2017

Dia dos Filhos











Parece que foi dia dos filhos (...)
Nem dei por esse dia passar por mim de forma diferente do que é o meu dia a dia.

Mas não poderia deixar de vir aqui deixar registado este dia, que na minha opinião faz todo o sentido.

Não sei em que teclas carregar para que o meu amor por eles passe para vós, a verdade é que acho que não existem palavras, frases ou junção das mesmas que me permitiam explicar o amor que se sente desde aquele momento em que sei que existe vida em mim, para mim é de todo inexplicável.
Um medo constante, uma responsabilidade por um ser que cuido, um orgulho constante a cada vitória.
A vida presenteou-me com dois filhos -  Duarte e Constança.
E todos os dias da minha vida agradeço a Deus por essa dádiva.
Sei que hoje a minha vida está dividida entre o céu e a terra, mas está também em mim a certeza que não existe essa separação, se tudo é um todo o céu e a terra estão juntos depende da forma que como queiramos "ver" este JUNTOS.

Sei dentro da minha alma que o "juntos para sempre" existe em mim, até onde esse sempre for - existe em mim!
Ter filhos é o maior desafio que a vida me colocou...
Ter filhos é uma aliança eterna de um amor que por vezes dói...
Dói tanto ou tão pouco que se torna leve e único...
Tanto ou tão pouco que existe em mim para todo o sempre.

Escrever ou falar sobre eles é-me sempre difícil, choro sempre.
Faz parte, aliás desde que a minha forma de viver se uniu entre o palpável e a fé que tudo se tornou um pouco mais leve.
Sei dentro da minha alma que por mais que me sinta sozinha, nunca estou só.
Sei dentro da minha alma que o meu corpo é apenas o veículo para que estas almas viessem ao mundo cumprir a sua missão aqui na terra.
Este é o meu veículo, o meu corpo, eu!
Amanhã não sei, sei que dentro de mim existe um amor eterno, existe um "juntos para sempre".
Como dizia Sócrates existe um eterno "só sei que nada sei (...)" - mesmo nada sabendo sei que tudo o que fiz e faço por estes seres é AMOR.

Feliz dia dos Filhos eterno amor Duarte e Constança .

Mamã.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Na eternidade do meu presente


















A água escorre-me pelo corpo, desliza em mim. Tépida, agradável e um tanto ou pouco relaxante...
O peso do futuro, a carga do passado, tudo desliza em mim suavemente, tudo me faz olhar o meu corpo e ver nele uma história de vida - a essência  da minha alma.

Agarro-me ás memórias com "unhas e dentes", entrego-me a elas imaginando-as apenas como memórias em mim, o meu corpo grita saudade, e minha alma pede que me cumpra. 
Se com "unhas e dentes" me entrego ás memórias, possivelmente com todo o meu corpo e alma me entrego a um futuro, se é que existe passado e futuro nesta que é uma vida eterna.

Os pensamentos escondem sonhos, transpiram vontades, escondem emoções que só o corpo, alma e mente podem sentir, e que as palavras não sabem expressar.

A vida passa por mim, desafia-me diariamente com obrigações, responsabilidades, ilusões e (des)ilusões. 

Tudo faz parte do meu crescimento interior, um ser evoluído não precisa de sofrer, não precisa de sentir dor - mas precisa de saber lidar com ela, atravessando-a lentamente, sentido e acolhendo cada pormenor  desse processo.

Em mim cabe todo o amor do mundo, em mim cabem todos os sonhos, em mim cabe a vontade de fazer mais, em mim cabe frustração, em mim cabe Amor eterno pelo próximo, em mim cabe uma vida cheia de luta.
Cabe incompreensão aparentemente compreendida... em mim cabe, des(amor) aparentemente enamorado.

Não escondo fragilidade, não quero estar forte hoje - quer apenas SER !
Para para ser eu não posso querer SER, eu tenho apenas que me limitar a - SER. 

E eu sou... 
Sou "apenas" um corpo com história, um ventre que carregou amor, uma vagina que expulsou vida eterna em mim, uma mente que se condiciona por obrigações e que se cansa por vezes...
Sou uma alma que escolheu vir... 
De um coisa eu tenho a certeza, viverei a minha vida de forma a que no momento da morte eu saiba porque cá vim, qual é a minha missão aqui na terra.

Hoje a minha missão é sentir missão em mim...

Se com "unhas e dentes" me entrego ás memórias, com todo o meu corpo e alma me entrego a um futuro, se é que existe passado e futuro nesta que é uma vida eterna.

Tenho a certeza de um Amor eterno em mim.

Um beijo com sensação  que ficou tanto por dizer (....)

Cláudia 


terça-feira, 6 de junho de 2017

O meu caminho de água gelada




















Hoje não sei quase nada, sei apenas o que a minha saudade me diz, o que a minha alma me sussurra.

Sei hoje que a minha vida é como a água, por vezes preciso de a sentir gelada para perceber que tenho que agir para a aquecer, ou que tenho (apenas) de me habituar a esse gelo. 
Esse gelo que por vezes dói, nos ossos, na pele, na cabeça, na alma...

Porque a minha vida é água.
A água que agora me escorre pela cara, leve e salgada - é tão bom poder senti-la.

A água passa-me pelos dedos, posso senti-la mas não a posso agarrar.
Tal como a minha vida passou-me "pelos dedos", ontem podia senti-la mas não podia agarrá-la, hoje posso senti-la mas não posso agarrá-la.

Corre em mim o peso do gelo, corre em mim o quente das termas...
Corre em mim a amargura da água, corre em mim a pureza da mesma...

A minha vida é como a água, por vezes sabe mal, mas a verdade é que me é essencial.
A minha vida é como água, transparente... Cheia de boas sensações se as quiser sentir, amarga e suja quando assim tem de ser.

Talvez tenha que atravessar esse caminho de água gelada, amarga e suja, para perceber que do outro lado existe outra quente, límpida, transparente...
Essa que eu não consigo agarrar mas que posso usufruir enquanto ela não acaba. 

Pergunto-me: "E ela acaba?" - "Não sei, mas creio que não".
Depende do que para mim é acabar, se tem fim? Não! 
Se posso deixar lhe tocar um dia? Sim! 

Caminho com os pés na água suja, tanto que nem os vejo - mas eles existem, eles estão lá. Eu quero vê-los, quero só ver o aqui e agora. 

O aqui e agora  esse caminho de água gelada, amarga e suja... em certas zonas começa a aquecer... aos poucos consigo ver os meus pés.

E quando levantar a minha cabeça e não olhar apenas para os meus pés nesta água suja, 
olho o horizonte percebo que este é o caminho que tenho que atravessar para tudo se tornar mais claro para mim, mais quente para o meu coração, mais transparente para a minha alma. 

Porque a minha vida é água.

E o meu caminho é apenas isso, um trajecto traçado onde eu posso escolher sentar-me naquela rocha, e continuar a tentar observar os meus pés naquela água suja. 

E o meu caminho é apenas isso, um trajecto que eu posso decidir fazer, para que um dia ainda com os meus pés sujos, doridos, feridos de todo o caminho, eu possa sentar-me naquela rocha a olhar o horizonte, com água límpida, quente e que me aconchega.

Jamais poderia dar tanto valor a esse lado, se não tivesse atravessado o outro.

De uma coisa tenho a certeza, esse caminho, jamais o farei sozinha.

Até já filho.

A mamã

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dia da Criança 01-06-2017




















DIA DA CRIANÇA

Hoje decidi escrever para todas as crianças com doença oncológica, na verdade sinto necessidade de o fazer, baseado claro na minha experiência, e com a visão dos meus olhos e da minha alma.

Sempre adorei crianças, desde criança. 
Sempre fui muito maternal com elas, tratava, brincava, juntava ao meu peito... Felizmente tenho uma família de amor, e esse amor ficou-me nas entranhas, disso tenho a certeza.

Fui conhecendo várias crianças ao longo da minha vida, mas nunca, Crianças tão especiais como estas. Pois bem, vocês agora pensam que digo isto porque tenho "pena", e porque toda a gente o diz.
Sim tenho pena, pena de não poder estar mais tempo com elas...

Pena de não aprender diariamente mais e mais...
Pena de quem tem pena, essa é a pena que eu tenho.

Neste dia da criança o meu coração grita de saudades... Saudades da minha criança, saudades de outras crianças que hoje são anjinhos.

Mas ao mesmo tempo, o meu coração enche-se de amor ao escrever isto, porque sem duvida foram estes seres que me fizeram SER hoje. 
Hoje sou um adulto feito por estas crianças, pelo que me ensinaram, pelas grandes lições caladas, pelas longas e determinadas palavras do silencio das almas, pelo valorizar inconscientemente o que é valorizar, e nem pensar no que não vale a pena. 

É de louvar a ingenuidade destas crianças, misturada com uma maturidade autentica, e com uns pózinhos de algo que não sei explicar. Mas que há magia nelas, há. 

FELIZ DIA DA CRIANÇA , A TODAS AS CRIANÇAS QUE ME ENSINARAM A VIVER 
QUE ME FIZERAM - SER.

FELIZ DIA A TODAS AS CRIANÇAS DA MINHA VIDA. 

Feliz dia da Criança aos meus arco-iris - Constança, Francisco e Pedrinho

Feliz dia da Criança meu anjinho da mamã. Obrigada por tudo.

Com amor, 
A Mãe do Duarte







  

sexta-feira, 26 de maio de 2017

26-05-2017

Meu amor...


Como a tua ausência física é sufocante...
Como dói, como escarafuncha, como me deixa impotente mais uma vez..
Só mais um momento, mais um beijo, mais um miminho, mais e mais e mais...
A impermanência que me faz acreditar que o amanhã será melhor.. 

A soluçar que por vezes não pára...
O ser forte e determinada, que cansa!! 
É assim que me sinto filho, cansada.

Sabes meu amor? 

Tomei a decisão mais acertada, mas mais difícil. 
Escolhi viver. 
Escolhi aceitar esta dor, que dói mesmo.
Escolhi agarrar-me ás memórias e torna-las diariamente presentes em mim.

Filho desculpa as vezes que abraço o meu colo vazio, as vezes que te choro, as vezes que mordo as mãos, que mordo o lábio com força ..

Desculpa as vezes que não sou tão forte quanto me vias.. Mas esta saudade dói.

Ao mesmo tempo uso todos os meus recursos para conseguir viver em pleno, relembrando o amor que nos une e sempre nos uniu a todos.
Lembro-me de ti a todos os momentos...

A mana e a mamã cantam a música da estrelinha para ti sabias?
Cada vez que a canto com a mana o meu coração sente um quentinho, o meu colo fica cheio de amor... imagino-te ali sentado, na outra perna.

Cada vez é mais mágica a nossa relação "fiinho"...

Cada vez percebo melhor o porquê de me teres escolhido, só podias ter sido meu filho, a verdade é essa, eu sinto isso.
Aiiii e agradeço tanto á vida essa bênção, essa magia, esse orgulho em ti meu amor.


Escolhi viver meu amor. 

Escolhi um amanhã melhor.
Escolhi rir-me e chorar.
Escolhi ser.

E não me sinto culpada por isso:

Porque contigo em vida, eu vivi, eu acreditei num amanhã melhor, contigo em vida eu ri e chorei , contigo em vida eu escolhi SER !
Eu pari-te, mas tu fizeste-me ... Renascer.

Não sei SER o que eu (não) ERA antes.


Com amor, com gratidão, com saudade, com orgulho,
Mamã que te ama tantinhi filhini ❤

Até já!

A Mãe do Duarte

terça-feira, 23 de maio de 2017

08-12-2016



O DIA EM QUE FEZ DOIS ANOS QUE TE TROUXE AO MUNDO...                       






A nossa querida amiga Luisa nao conseguiu estar presente mas enviou também um balão ao Du.









                           

Passatempo Corine de Farme - CARTA AOS MEUS FILHOS


DIA INTERNACIONAL DA CRIANÇA COM CANCRO

15 de Fevereiro - Dia internacional da Criança com cancro.


Há um ano atrás tinha-te comigo, vivia de perto a realidade de ter um filho com cancro.
Algo que nunca imaginamos, algo que tememos sempre, e aconteceu, o nosso filho tinha cancro, nós estávamos no IPO... 
Por vezes era difícil de acreditar, mas era verdade, ele tinha cancro, e nós estávamos ali. 
Mudei a minha prespectiva em relação ás crianças com cancro, na verdade são só crianças...
"SÓ"? Não... elas são AS crianças, elas têm um brilho, têm uma luz diferente, conversas que achamos não serem possíveis...
Elas brincam, elas querem ser felizes, elas abraçam diferente e amam intensamente.
Elas são especiais, e não por terem cancro, mas sim por terem essa missão, de Amar e viver intensamente.
Não tenham pena ao ler-me, valorizem os vossos filhos saudáveis, valorizem a parede pintada, e a noite mal dormida.
Valorizem o apetite, valorizem as chamadas de atenção e a inquietude tremenda..
Valorizem a vossa casa, e a vossa cama.
E a todas as crianças e pais que passam ou passaram por este desafio da vida, vai toda a minha admiração e carinho, não é fácil, é cansativo, mas não é o cansaço que se vê, é o AMOR.


A mãe do Duarte

segunda-feira, 3 de abril de 2017

1 ANO


É amanhã...

É amanhã...



Sinto-me perdida na dor, na dor do teu corpo que não está.
Sinto-me gelada tanto quanto o teu corpo quando pela ultima vez lhe toquei.
Sou só eu e tu nestes dias, apetece-me abraçar-me ás memórias...
Apetece-me desarrumar as tuas coisas guardadas, para que pelo menos elas tenham vida, vida física em mim.
Gostava de poder apagar do calendário estas datas, por outro lado sei que ultrapassá-las me mostrará que sou capaz, e que vou sair delas, completamente destruída, mas viva.
Escolhi viver, por todos os que amo...
É difícil para mim viver, sou a personagem que escolhi ser nesses dias, e em tantos outros.. Sou a personagem, feliz e realizada. Quando me sinto simplesmente, amputada.
Gostaria de escrever hoje frases de amor profundo pois é só isso que sinto pelo meu filho...
Mas hoje estou gelada, atormentada, adormecida.
Mas escolhi levantar-me, tratar do que tenho a tratar...
Fazer da vida aquilo que eu escolho, hoje eu escolho chorar, mas andar..
Gritar para uma almofada, e sorrir para a minha doce filha Constança o tanto quanto possivel.
A actriz faz-me bem, começo a acreditar nela.
Ninguém me poderá dar palpites daquilo que deverei ser, eu sou o resultado do que a vida me deu.
Passado um ano, vêm as memórias, talvez por isso o meu coração bate devagar, e as minhas mãos transpiram geladas.
São memórias de um amor profundo...
São as memórias do dia em que salvei o meu filho do sofrimento..
São as memórias do olho no olho..
São as memórias de uma dor que não saía em forma alguma...
Memórias de um dia que sabia que iria chegar, o dia em que o meu filho quis partir, que mãe seria eu se não o ajudasse ?
Meu Filho, as saudades são destrutivas 
Meu Filho, tanto amor te tenho..
Meu Amor doce, dos beijinhos babados, lavo a cara para a sentir de novo molhada.
Vem-me tocar, vem-me abraçar, vem aos meus sonhos e mostra-me que é bom estar aí...
Sei que um dia nos vamos ver, espera por mim, enquanto isso: abraça-me de manhã.
Se eu soubesse de tudo o que iria ser a nossa vida juntos: eu seria novamente tua mãe. És o meu maior orgulho.
Hoje estou tão triste, desculpa.
Amanhã não sei como será.. 
Mas uma certeza eu tenho, o meu amor por ti cresce a cada dia.
Não vou ultrapassar, não vou fazer nenhum luto... Vou ter fases, vou escolher ser feliz, e tu? Tu farás sempre parte dessa felicidade, a felicidade de ter sido eu a escolhida para ser a tua "mamãmamamamamm" <3 span=""> 

No teclado não encontro letras para escrever o amor que tenho por ti deixo-te este AMO-TE.

A Mãe do Duarte

<3 br="">






quinta-feira, 16 de março de 2017

Conversa com a minha saudade


Olá querida Saudade, 

Começo por dizer que te trato bem para que não entres em mim de forma incontrolável.

Por outro lado admito que me fazes bem, fazes-me lembrar do quanto foi bom ter o meu filho comigo.

Querida saudade...Por favor não venhas tão repentinamente, avisa-me da tua chegada para que me consiga preparar.Querida saudade...Ajuda-me a recordar apenas das coisas que me fazem sentir bem, e não me adoeças.

Ouve-me com atenção, a cada dia que passa tu entras mais em mim, a cada dia que passa tu és mais forte, mas eu também sou sabes?

Conheces o  tempo? Aquele que dizem que cura tudo, pois bem, aqui é bem diferente.Na verdade tu sabes que não cura, apenas me ajuda a perceber com mais clareza as coisas.

Tenho-te em mim quando me imagino abraçada a ele, tenho-te em mim todos os segundos do dia...Posso-te pedir que não te vás embora?Não vás, apenas permanece em mim de forma harmoniosa e não quase patológica.

Ter-te em mim faz-me perceber que não vivo em vão, e que estou ainda sã. 

Obrigada pelas memórias que me trazes, e pelas momentos bons que me fazes lembrar.

Obrigada por não me abandonares, e por me fazeres ver que juntas podemos ser mais fortes, e que podemos viver juntas.
Afinal vamos viver juntas até ao fim dos meus dias.
Por isso sejamos cordiais, eu já te aceitei, agora peço-te que não me causes aquela dor que não cabe em mim.

Querida saudade,
Fazes parte de mim, cruzaste no meu caminho desde que o meu filhote ficou doente.
Tinha saudades do meu filho saudável.
Hoje tenho saudades do meu filho, só do meu filho.

Saudade anda comigo, podemos caminhar juntas... 
Saudade anda comigo, e chama o Amor para que ele seja mais forte do que eu e tu podemos ser juntas.

Obrigada Saudade.

A Mãe do Duarte


Com saudade, com amor...
   

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Sobre o Natal














Querido filho, este foi o nosso primeiro Natal sem a tua presença física...
Admito que o temi muito tempo antes do dia, temi não aguentar.

Senti tanto a tua falta...
As palavras faltam quando se fala de Saudade, principalmente quando quero descrever as saudades que sinto do teu cheiro, do teu miminho, do teu corpinho,

Imaginei-te a abrir os presentes, bem sei que o Natal não são prendas, mas a verdade é que adorava ter-te visto a rasgar os embrulhos, a verdade é que queria ver isso... A verdade é que queria-te vestir a combinar com a mana e com o primo, a verdade é que queria ter-te naquela mesa, a verdade é que adorava ter-te comprado imensas prendas.

Tentei até ao dia evitar, imaginar que não era Natal, mas era inevitável esse dia ia chegar, e eu mais uma vez ia ter que colocar a mascara do "está tudo bem" e tentar levar as coisas com normalidade, por nós, pela mana, pelo Xixo, por todos.

Consegui sentir-te, como consigo todos os dias...

Ao mesmo tempo senti a união de toda a nossa família, estou muito grata por isso, e sei que tu tiveste influencia nisso, tu unis-te a nossa família, tu mostras-te o quanto conseguíamos ser unidos e apenas, AMAR.   

Filho, fizeste-me tanta falta...
Fazes-me tanta falta...
Como estarias agora?
Como ias reagir a ver a vovó vestida de mãe Natal?
E o Xixo a desmanchar a árvore ao tio João...
Como ias reagir a ver a mana nas maminhas da mamã?

É inevitável não consegui não imaginar tudo isso...

Ao mesmo tempo sei que estás sempre em nós, sei que nos vês, e sei que nos Amas assim como nós te amamos a ti.

Obrigada por teres ajudado a mamã.

Não te esqueço, NUNCA.

AMO-TE Fíinho.

Com amor,

A mãe do Duarte

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Eu não perdi um filho


Hoje apetece-me partilhar convosco um bocadinho daquilo que vai cá dentro, só uma parte, talvez a menor parte de toda a dor que é "perder um filho".
Sim também eu já usei esse termo, talvez todos os dias em que tenho que explicar e responder a perguntas que apertam o coração, apertam só de saber que vou ter que responder:
"Quantos filhos tem?"
"O agregado familiar é constituído por quantos membros?".
Perguntas tão simples, mas que tiram noites de sono, tiram sanidade, e relembram a realidade, na sua mais dura e crua forma. 

Eu não perdi o meu filho, uma mãe nunca perde um filho apartir do momento que o ame...
Eu não perdi o Duarte, ganhei-o de uma forma diferente...

Um filho não se perde. Jamais.
Eu digo que perdi um anel, eu digo que perdi a minha chave de casa, eu digo que perdi o meu telemóvel.
Jamais um filho... 
Um filho não se perde, um filho é para a vida, tenha essa vida o tempo que tiver, e quanto tempo tiver a minha vida, ele fará parte dela.

Sei que é difícil e constrangedor também para as outras pessoas lidarem connosco, e apartir do momento em que "perdemos um filho" ganhamos esse rótulo, e passamos a ser como se uns bichos intocáveis.
Constantemente são arranjadas palavras de conforto, ou não palavras também de conforto.
Constantemente desejamos que o nosso filho seja falado, convidado, seja acolhido como fazendo ainda parte de nós, a questão é que se faz o contrário com medo, que seja duro para nós.
Duro é não podermos mostrar a foto do segundo aniversário...
Duro é não poder imprimir a foto do nosso filho com o pai natal, e não poder contar como foi a sua reacção...
Duro é aceitar que morreu.
Duro é acharmos que só em nós é que ele ainda vive. 

Eu não perdi um filho, e pf não me digam para o deixar partir...
Serei obrigada a perguntar como é que se deixa um filho partir? 
Essa frase poderia ser enquadrada num cenário físico, como deixá-lo ir na carrinha da escola, como colocá-lo no comboio para ir visitar um amiguinho, algum cenário onde houvesse alternativa.  
Se eu tivesse que escolher tê-lo-ia aqui, bem perto do aquecedor, de banho tomado, alimentado e quentinho, a ver o canal panda e a receber amor. Isso não é possivel.
Mas é possivel e inevitável  tê-lo em mim, por isso, eu não perdi um filho, nem o vou deixar partir. 

Deixá-lo partir, perdê-lo é deixar de existir em mim a parte que ainda resta.
Eu não o perdi, eu perdi uma parte de mim, isso sim.

Regresso dia 8 se conseguir... 

Com amor,
A mãe do Duarte

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ajudas a mamã?




















Meu querido e sempre amado filho,

Hoje escrevo-te com a maninha ao meu lado...
Só tu sabes a influência que tiveste no seu nascimento, parece que sabias já que aquele dia ia chegar, e talvez soubesses, eras um ser muito iluminado e diferente.
Sabes? Por vezes olho a mana, e observo os seus movimentos, como é uma benção não me teres deixado sozinha e vazia, tu sabias que eu não ia aguentar, tu sabias...
Só nós sabemos o nosso amor, e só nós sabemos que este nunca acaba... 
Admito que anseio o dia em que seja possível ver-te de novo, não sei se isso é possível, mas farei tudo durante a minha vida na terra para ter um lugar no céu bem junto a ti... 
Não consigo arranjar palavras para as saudades que sinto, a angustia de não te ver crescer é dolorosa, que faz um aperto tão grande que não dá para explicar.
Quero-te também agradecer por estares ao meu lado sempre que preciso, e por sentir o teu amor em todos os segundos.
Desculpa-me se sou chata, desculpa-me estar sempre a falar contigo e a pedir-te que me ajudes nesta dor que sufoca a mãe... mas tu sabes, as saudades são cada vez maiores, espero que aí nesse lugar onde estás não as sintas, porque estás sempre no meu coração e no meu pensamento. 
Sobre o dia 8, farias 2 aninhos... ainda nem quero falar sobre essa data: Ajudas-me mais uma vez a superá-la?

Filho?! AMO-TE TANTO MEU AMOR !  

Com amor e para sempre,
A Mãe do Duarte

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

E assim passou um ano...

Vida que me pedes mais do que consigo...


Vida que não paras, mas devias parar e voltar atrás... por mais um minuto que seja.
Faz amanhã um ano que tudo começou...
Faz um ano que a minha vida mudou, e que me confrontei com o diagnóstico do meu filho.
Hoje não há forças para nada...
Há dias que me questiono a mim própria se serei capaz de viver assim, literalmente "amputada" ...

As memorias teimam em andar aqui, as saudades essas só aumentam.
E a vida? Essa não pára.
A cabeça dói, a barriga dói, o estômago não pára... É mesmo verdade que o corpo fala, e o meu não se cala.
O meu grita de Saudades, grita de medo e angustia.
O meu não tem energia.

Como se vive sem ver um filho crescer?

Quero lutar pela vida assim como o meu filho lutou... Não quero desistir, não quero parar, não quero que a dor me defina.
Vida, deixa-me definir eu a minha dor.
Vida, deixa os meus olhos rirem novamente...
Deixa o meu coração Amar sem medo, e caminhar nesta realidade que é a minha.

Há uma coisa que nunca mais fiz da mesma forma e que fazia constantemente, não fosse eu a pessoa mais vaidosa que conhecia: ver-me ao espelho!
Hoje vejo, olho para mim mas desvio o olhar, talvez com medo de ver a minha alma, talvez.
Ou talvez com medo das memórias que o meu corpo me trás.

Hoje, amanhã e sempre terei saudades...
Hoje, amanhã e sempre vou sentir a tua falta.

Um beijinho na tua alma com muito muito amor,
A tua mamã. A mãe do Duarte

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Meu querido Outono (onde começam as recordações)





Querido outono...


Que o ano passado me deste o que iria ser futuramente uma grande batalha e lição de vida, o diagnóstico de um filho saudável, cheio de vida, que agradecia a Deus todos os dias essa vivacidade e saúde.
E de um dia para o outro vi-me perante o primeiro luto da minha vida, o luto do meu filho saudável, para começar a lidar com o mesmo meu filho, mas doente, mais frágil, ainda mais dependente...
A dor dele seria a minha a partir desse dia, desejava ser eu, desejava acordar daquele pesadelo, ou adormecer para sempre lado a lado com o meu filho.


O dia que era frio e chuvoso deixou de se fazer sentir no meu corpo. Pergunto-me hoje como uma situação poderá tirar de nós qualquer sensibilidade, mas a verdade é que fisicamente eu não sentia nada, não tinha frio, não tinha fome, não tinha sede, só identifico uma coisa naquele momento: Medo, muito medo... conheci-o de perto, e até hoje ele não me largou.
Outono que alteraste a minha vida, o meu ser.
Outono frio, que levaste o meu filho saudável...
Só desejo que que este ano o nosso Outono seja abençoado com uma nova vida, a vida daquela que lado a lado com o seu irmão guiará o meu caminho.


Outono frio, torna o meu coração mais quente este ano, e o medo que me apresentaste o ano passado, deixa-o aqui, mas não deixes que ele tome conta de mim e me descontrole.


Este ano em que faço o segundo maior luto da minha vida, o luto de não ter fisicamente o meu filho comigo, o luto crónico acompanhado de um amor imenso que não passa, não passará e que faço tudo para que não passe.
As imagens boas que á meses acompanham os meus dias, noites, horas e minutos.. As imagens desgastadas que andam tanto em mim que tenho receio que desapareçam.
É parvo? Sim poderá ser.
Mas é a verdade, a verdade daqueles que lidam com o amor sem ver quem amam.


Oh outono.... oh vida.... oh justiça...
Justiça, sim:
Partilho convosco a minha vontade durante alguns anos, em que dizia que gostaria de me formar em direito, que me fascinava lidar com justiça.
Confronto-me hoje com o doutoramento da vida, aprender a viver, reaprender a viver, e saber que por mais que Deus me tenha levado o meu bem maior, me vai dar este Outono a benção de amar igualmente um ser que me veio dar vontade de continuar...
Quando digo que a vida foi injusta comigo, lembro-me que no meio de tanta dor cresce em mim a justiça divina e inexplicável, um novo ser, que não será meu, mas terá certamente a outra parte de mim, aquela que não está algures pelo céu.
Querido Outono abraça a dor das minhas memórias, e permite que elas se tornem mais suportáveis...
Abraça e recebe a minha filha, e permite-me amá-la genuinamente sem que o medo tome conta de mim...
Querido Outono não leves as minhas memórias, deixa-as no meu coração e faz com que sejam eternas em mim.
Querida vida que me obrigas a crescer diariamente, que me fazes conhecer todos os sentimentos num só dia...
Que o amor seja eterno em nós e que caiba todo no nosso coração para sempre.
Que este seja suficientemente grande para atravessar a atrocidades da vida e chegue á alma dos meus filhos.
Que ele seja suficientemente válido para que a luz que acendo diariamente ao meu filho, chegue a ele a mim e a todos aqueles que sofrem...
Que a saudade não seja maior que ele.
Sim, porque uma coisa eu sei, ele viverá sempre em mim de uma forma pura e genuína.
Afinal o amor por um filho não morre, nunca.



Com amor,
A Mãe do Duarte